J. B. Oliveira, conhecido como Boninho, concebeu a Casa do Patrão com o objetivo de reviver a essência dos realities com participantes desconhecidos. Uma parte crucial dessa abordagem é a restrição que impede os confinados de terem equipes gerenciando suas redes sociais durante o confinamento. Contudo, essa medida gera questionamentos sobre como ela afetará o engajamento digital do formato.

A especialista Gigi Grandin, fundadora da agência Impulso Digital e profissional de marketing de influência, levanta o alerta. Ela sugere que a proibição dos "adms" pode ter gerado interesse inicial por ser inovadora, mas não se sustentará a longo prazo.

"Do ponto de vista estratégico, isso tende a comprometer o engajamento do programa", afirma Gigi em entrevista ao Notícias da TV. "Hoje, um reality show vai muito além do que é transmitido na televisão ou em plataformas de streaming. Ele se expande nas redes, por meio de cortes, memes, torcidas, narrativas paralelas e a capacidade de transformar eventos internos em discussões externas."

Quando um participante está isolado, o administrador de seu perfil desempenha um papel fundamental em manter a conexão com o público. É essa pessoa que organiza a narrativa, mantém a audiência atualizada, transforma momentos em conteúdo viral e contribui para ampliar a repercussão do programa. Remover essa função significa abrir mão de uma ferramenta vital para o engajamento.

Gigi complementa que "todo reality é construído com base em narrativa, edição, apoio dos fãs e percepção pública. Os adms auxiliam a contextualizar os acontecimentos, justificar reações, relembrar declarações anteriores, esclarecer momentos que poderiam passar despercebidos e organizar a comunicação do participante com sua base de seguidores."

Apesar de reconhecer que as abordagens dos administradores de perfis podem ter vieses, a especialista destaca que é natural que esses profissionais defendam aqueles que representam. "O perfil oficial, naturalmente, apoia o participante. Mas o público já compreende isso. A audiência de reality hoje é muito mais perspicaz do que antes, acompanhando cortes, páginas de fofoca, comentaristas, lives, discussões e múltiplos pontos de vista. O adm não é a única fonte de interpretação, mas é crucial para equilibrar narrativas e manter o participante relevante na conversa."

"Eu entendo o argumento de que o jogo poderia ficar mais 'limpo', mas acredito que essa 'limpeza' pode ter um custo alto em termos de engajamento", pontua Gigi. "Um reality show é, por natureza, um produto social. O que acontece dentro da casa precisa repercutir fora dela." Ela ainda enfatiza que, ao contrário do que muitos pensam, o profissional que gerencia um perfil público não se limita a "passar pano".

"Ele pode contextualizar, pedir responsabilidade à torcida, humanizar o participante, conter ataques e estruturar uma resposta mais equilibrada. Sem essa ajuda, o participante fica mais exposto a interpretações fragmentadas e, muitas vezes, distorcidas dos eventos", adverte.

"Sem os adms, o programa perde uma camada importante de contextualização, defesa, memória e mobilização. Em vez de eliminar narrativas externas, a ausência de perfis oficiais apenas transfere esse poder para indivíduos independentes, páginas de entretenimento e comentaristas, que ocupam esse espaço sem necessariamente ter um compromisso com a trajetória do participante", acrescenta a especialista. Essa estratégia para a Casa do Patrão pode realmente ser um risco?

Para Gigi Grandin, embora Boninho demonstre boa intenção ao impedir representantes digitais para os participantes da Casa do Patrão, a decisão pode impactar negativamente a forma como o público segue e consome o reality – o que, por sua vez, pode afetar a audiência televisiva.

"Eu não chamaria de dependência [dessa curadoria digital], mas sim de uma transformação no comportamento de consumo. A audiência atual não quer apenas assistir ao episódio. Ela deseja acompanhar os bastidores, rever momentos, compreender o contexto, participar da discussão e se posicionar", observa.

A ausência dos adms pode, de fato, diminuir o alcance orgânico e o potencial de viralização. O reality perde núcleos oficiais de mobilização, dependendo quase que exclusivamente da repercussão espontânea de terceiros para manter a conversa ativa. Será que Boninho subestimou o poder das redes sociais?

"Não creio que essa medida se torne uma tendência ampla. Pode ser usada pontualmente como um experimento de formato, mas, do ponto de vista de marketing, influência e construção de audiência, ela vai contra o comportamento atual do público. O futuro dos realities tende a ser cada vez mais multiplataforma, com narrativas ocorrendo simultaneamente na TV, no streaming, no TikTok, no Instagram, no X, no YouTube e em comunidades de fãs."

Boninho é reconhecido como uma das figuras mais influentes dos realities no Brasil, e a Casa do Patrão surge em um cenário onde o entretenimento depende cada vez mais da interação digital. Por isso, para Gigi, "impedir adms oficiais é uma decisão estrategicamente limitada. Reality show hoje não se encerra no episódio. Ele continua..."

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